06|09|2017

Chega de missões impossíveis na educação

Um dos grandes problemas dos governantes e planejadores de políticas públicas no Brasil é a contínua proposta de projetos grandiosos, inexequíveis ou fadados a serem interrompidos por falta de recursos.  Com irritante repetição, os projetos que conseguem ser implantados não atingem os objetivos e as metas propostas.

Em 1971, a Lei 5.692 implantou a profissionalização compulsória no 2º grau, hoje denominado ensino médio. A oferta das habilitações profissionais era obrigatória e deveria estar atrelada às necessidades do mercado de trabalho.

A lei foi implantada em âmbito nacional, descolada realidade. O educador Durmeval Trigueiro Mendes, ao analisar a elaboração de planos educacionais nos anos 1960 e 1970, conclui que “os tecnocratas misturam facilmente as duas tendências: a de planejar com facilidade e a de impor com facilidade; ou seja, a de formular a ordem e a de torná-la imperativa segundo as exigências de uma racionalidade desembaraçada dos empecilhos do real.”

O resultado da mencionada lei foi a banalização da profissionalização, adaptando as habilitações aos recursos disponíveis, na maioria dos casos sala de aula, giz e lousa. Houve sucessivos remendos à lei, até que outra a substituiu.

Infelizmente, parece que a lição não foi aprendida pela administração pública.

Em 2016, passados 45 anos da malograda tentativa de profissionalização no ensino médio, surge medida provisória no mesmo sentido. Prevê a implantação de escolas de ensino médio em tempo integral e a organização curricular em cinco áreas, incluída a formação técnica e profissional.

Temos agora as condições necessárias?

Há professores para a atuação em áreas? Num país em que, entre os professores de física, apenas 26,7% têm a formação necessária e onde 12,2% deles não têm sequer formação em nível superior, como supor que terão condições para atuar na área das ciências da natureza, que inclui também química e biologia?  Problemas semelhantes são constatados nas demais áreas.

Em um país onde Estados e Municípios não têm recursos para pagar o mínimo estabelecido para pagamento de professores, de onde sairão recursos para garantir o ensino em tempo integral? Como será o emprego desse tempo adicional?

Várias outras questões podem ser colocadas. Uma resposta “padrão” tem sido que, em outros países, iniciativas semelhantes tiveram êxito. Deixa-se de levar em conta que são países com outra cultura, outra organização do ensino, com volume de recursos meticulosamente planejados para a implantação de uma política educacional adequada.

Estamos, então, destinados a continuar com os mesmos problemas? Certamente que a resposta é não. Uma das possibilidades para reverter o quadro exposto é planejar mudanças de forma segura procurando atingir uma meta ampla aos poucos, etapa por etapa, com a consequente provisão necessária dos recursos para atingir os objetivos finais.

Um exemplo do proposto é a implantação de ensino por área de conhecimento na rede de escolas do SESI de São Paulo, a partir de 2017.

A primeira etapa, exaustivamente discutida com gestores, técnicos e docentes das escolas, é a implantação do que foi denominado “eixos integradores”. Na organização curricular, em cada área de conhecimento (Linguagens, Ciências da Natureza, Matemática e Ciências Humanas), será dado um tempo ao aluno para integrar e aplicar conteúdos e experiências. A partir de temas previamente definidos para cada ano/série e área, grupos de alunos pesquisam, selecionam e organizam o conhecimento, com a mediação dos professores.

Na Faculdade SESI de Educação, os alunos dos cursos de licenciatura por área de conhecimento, que poderão lecionar futuramente nas escolas do SESI, acompanharão a implantação dos “eixos integradores”, como parte da sua residência educacional.

O resultado do exemplo referido é que, com atividades controladas e criteriosamente implantadas, é possível inovar, avaliar e ajustar cada iniciativa, cada projeto e cada ação e seguir no rumo correto para atingir plenamente as metas projetadas.

É preciso olhar para as condições de nossas escolas, nesse país imenso e tão díspar de uma região para outra; olhar para nossos alunos, crianças e jovens com modo de vida e visão de mundo diferentes das gerações anteriores; olhar para nossa realidade atual, que poderá sofrer alterações após prolongada crise econômica, para traçar um plano realista e factível. Sem planos mirabolantes e inviáveis, mas no tamanho exato para a nossa realidade. Assim, conseguiremos transformar a utopia numa missão possível.

 

Walter Vicioni Gonçalves

Diretor do SENAI e Superintendente do SESI no Estado de São Paulo

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