12|05|2026

Neurociência e formação docente: especialistas defendem transformação da aprendizagem e novas práticas educacionais

As especialistas discutiram como os avanços da neurociência podem contribuir para uma educação mais significativa, humana e alinhada ao funcionamento do cérebro

O IV Congresso Internacional de Educação promoveu, no dia 11 de maio, a mesa “Repensando a Formação Docente sob a lente da Neurociência”, reunindo especialistas para discutir como os conhecimentos sobre o cérebro humano podem contribuir para transformar as práticas pedagógicas e potencializar a aprendizagem nas salas de aula.

Danielle Tavares, professora da Faculdade SESI de Educação
Foto: Everton Amaro – Fiesp/Sesi

 

A mediação foi conduzida pela professora da Faculdade SESI de Educação, Danielle Tavares, que destacou a relevância do debate para os desafios contemporâneos da educação. “Esse é um tema de fato muito instigante e necessário. É oportunidade de manter o diálogo, de falar da neurociência enquanto um campo que auxilia a transformação de nossas práticas e que faz com que as aprendizagens avancem nas salas de aula”, afirmou.

A mesa contou com a participação da pesquisadora internacional Veerle Ponnet e da pedagoga e psicopedagoga Ana Luiza Neiva do Amaral, pesquisadora do Departamento Nacional do SESI e integrante do Conselho de Administração da Rede Nacional de Ciência para a Educação.

 

Aprendizagem, emoções e desenvolvimento cerebral 

Reconhecida internacionalmente por suas pesquisas nos campos da comunicação, educação e inteligência artificial, Veerle Ponnet abordou a relação entre pedagogia, psicologia e neurociência como pilares fundamentais para compreender os processos de aprendizagem. “Vocês têm a pedagogia, psicologia e neurociência. Quando esses três se juntam, nós usamos esses insights, essas ideias, para melhorar o aprendizado e a educação dentro do campo da neurociência”, explicou.


Veerle Ponnet, reconhecida internacionalmente por suas pesquisas no campo da comunicação, educação e inteligência artificial,
atua como professora e pesquisadora com sólida produção acadêmica voltada à neurociência e à análise de práticas educacionais mediadas por tecnologia.

Foto: Everton Amaro – Fiesp/Sesi

 

Ao longo da palestra, a pesquisadora destacou que o aprendizado está diretamente conectado às emoções, às experiências e ao ambiente em que o estudante está inserido. “Criar associações positivas durante o processo educacional contribui significativamente para a retenção do conhecimento”, afirmou.

Outro ponto central da apresentação foi a importância da aprendizagem ativa, da repetição e do sono para a consolidação da memória. A pesquisadora explicou que repetir conteúdos fortalece as conexões neurais e facilita a retenção das informações. “Quando a gente pensa sobre o que conseguimos reter do aprendizado, vemos que o aprendizado ativo é muito mais eficiente. Quanto mais repetimos alguma coisa, essas conexões entre as nossas redes mentais ficam muito mais rápidas, assim nós vamos reter de maneira mais simples e mais rápida”, destacou.

Ela reforçou, ainda, a necessidade de os professores explicarem aos alunos a relevância desse processo. “Eu não estou dizendo que a repetição vai se tornar popular com os nossos alunos, mas quando eles entendem por que ela é necessária e como isso vai ajudá-los a aprender, talvez alguns tentem fazer esse trabalho”, disse.

A pesquisadora também abordou o papel fundamental do sono na organização das informações adquiridas ao longo do dia. “Quando a gente dorme, toda essa informação é colocada em ordem e passa a fazer parte da memória. No final da noite, mesmo tendo as mesmas informações na mente, nós sabemos onde encontrar cada coisa. É justamente aí que está a diferença”, explicou.


Foto: Everton Amaro – Fiesp/Sesi

 

Durante a apresentação, Veerle conduziu uma dinâmica com os participantes utilizando as mãos para representar diferentes áreas do cérebro e demonstrar como situações de estresse afetam o funcionamento do córtex pré-frontal, região responsável pelas funções executivas e pela tomada de decisões.

Segundo ela, compreender esses processos ajuda os educadores a desenvolver estratégias mais eficazes para apoiar os estudantes em momentos de ansiedade, pressão e insegurança. “Essa é uma forma interessante de explicar para os nossos alunos o que acontece com o seu cérebro. Todos os cérebros são únicos. O processo de aprendizado é aprimorado com os desafios, mas é preciso cuidado: se o desafio for muito grande, a gente acaba não enfrentando”, ressaltou.

A pesquisadora ainda destacou o caráter social da aprendizagem e a importância do sentimento de pertencimento nos processos educativos. “Aprendemos mais quando sabemos que todos estamos interessados no mesmo assunto e estamos motivados a fazer progresso”, afirmou.

Ao encerrar sua participação, Veerle Ponnet reforçou a importância da união entre teoria e prática na construção do futuro da educação. “Se trouxermos o que fazer e como fazer juntos, conseguimos realizar o que queremos. Acredito que cada educador é um sonhador. Queremos um futuro melhor para todos e tudo isso começa com a educação”, concluiu.

 

Formação docente, inovação e transformação da educação 

Na segunda palestra da mesa, Ana Luiza Neiva do Amaral refletiu sobre os desafios da formação docente no Brasil e defendeu a necessidade de transformar a educação a partir das evidências da neurociência. “Se queremos virar a chave da formação docente no nosso país, precisamos entender a diferença entre informar e educar. Quando informo, transmito dados e conceitos; quando educo, transformo. Educação tem a ver com transformação”, afirmou.

 


Ana Luiza Neiva do Amaral, pedagoga e psicopedagoga, mestre e doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB).
Pesquisadora do Departamento Nacional do SESI, membro do Conselho de Administração da Rede Nacional de Ciência para a Educação.
Foto: Everton Amaro – Fiesp/Sesi

 

A pesquisadora destacou que a escola já não pode responder aos desafios atuais com modelos do passado. “Não estamos mais na sociedade do conhecimento. Estamos em uma sociedade pautada por uma cultura de inovação. Hoje, mais importante do que a quantidade de conhecimento é a capacidade de manejar esse conhecimento de forma crítica e criativa”, explicou.

Segundo ela, esse cenário exige mudanças profundas nas práticas pedagógicas e na própria compreensão sobre aprendizagem. “Precisamos mudar a reflexão do ‘o que ensinar’ para o ‘como ensinar’. E para responder isso, precisamos entender como o aluno aprende do ponto de vista cerebral”, disse.

Nesse contexto, ela destacou uma das principais contribuições da neurociência para a educação: a compreensão de que a aprendizagem não ocorre apenas pela experiência, mas pela reflexão sobre ela. “Nós não aprendemos simplesmente tendo uma experiência. Nós aprendemos refletindo sobre uma experiência”, explicou ao defender práticas pedagógicas que incentivem o pensamento crítico e a elaboração cognitiva dos estudantes.

A pesquisadora também alertou para o que chamou de “ensino dos excessos”, marcado por currículos extensos, excesso de atividades e pouco tempo para aprofundamento. “Essa fórmula que a educação vem insistindo ao longo do tempo vai na direção oposta a tudo aquilo que a neurociência preconiza”, afirmou.

 


Foto: Everton Amaro – Fiesp/Sesi

 

Para Ana Luiza, o tempo é um dos recursos mais importantes para a inovação educacional. “O manejo do tempo na sala de aula é fundamental para romper com essa aprendizagem superficial e garantir uma aprendizagem duradoura”, explicou. Segundo ela, o cérebro precisa de tempo para processar, reorganizar e consolidar as informações até que elas sejam armazenadas na memória de longa duração.

Ana também destacou a importância das interações sociais nos processos de aprendizagem e reforçou que diferentes estratégias pedagógicas produzem impactos distintos no desenvolvimento cerebral. “As pesquisas mostram que nem todas as estratégias pedagógicas têm o mesmo impacto na reorganização cerebral. Algumas potencializam os resultados de aprendizagem e outras podem dificultar sobremaneira os caminhos da aprendizagem dos estudantes”, explicou.

Segundo ela, garantir que os professores tenham acesso às descobertas da neurociência é essencial para selecionar práticas pedagógicas alinhadas ao funcionamento cerebral e capazes de promover melhores resultados educacionais.

Encerrando sua participação, Ana Luiza reforçou a urgência de transformar a formação docente e pensar a educação como uma necessidade do presente. “A educação não tem a ver com informação, ela tem a ver com transformação. A educação do futuro é agora. Agora é a hora da gente virar a chave da formação docente no nosso país”, concluiu.

 

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